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A dama canta o blues

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29/07/2014 18h46

A cantora Billie Holiday. Crédito: AP Photo

A cantora Billie Holiday. Crédito: AP Photo

Lucas Colombo
Especial para o UOL

O que escrever sobre Billie Holiday, neste mês em que se completam 55 anos de sua morte? O que ainda não foi dito acerca dessa fabulosa cantora? Talvez a maior intérprete do jazz, com Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald a dividir o pódio, ela faleceu em 17 de julho de 1959, aos 44 anos. Este texto corre o risco de ser redundante e apenas destacar o que é sempre destacado nela, porém não há muito espaço de manobra. É impossível não elogiar o timbre prontamente reconhecível, a grande capacidade de expressar emoções através do canto, a sensualidade. Sua voz não é o que se pode chamar de “bonita”; é áspera, rascante, anasalada, mas flexível e quente. Com seu fraseado que “jogava” com o ritmo e sua sensibilidade melódica, Billie contribuiu para definir o que é cantar no jazz (Frank Sinatra, aliás, ia ouvi-la quase toda noite) e tornou-se referência até de instrumentistas. Só para permanecer nas intérpretes, e nas contemporâneas, Cassandra Wilson e Madeleine Peyroux são duas que se assumem bastante influenciadas por Lady Day – como Billie foi apelidada pelo parceiro saxofonista Lester Young.

Relativamente fácil apontar suas qualidades, difícil selecionar, por serem tantas, suas interpretações mais notáveis. É que não faltou material de trabalho para Billie expor sua competência: o período no qual viveu foi o mais rico da canção americana, e ela soube usufruí-lo. Gravou todos os grandes compositores. De Duke Ellington, são marcantes em sua voz “Solitude”, em que desenvolve um clima melancólico comovente (há duas versões, a melhor é a em que canta acompanhada do piano de Oscar Peterson e do violão de Barney Kessel, 1952), e “Sophisticated lady”, em que, além da sutil contundência com que emite a letra sobre a senhora que, embora tente disfarçar, sente falta de um amor do passado, demonstra seu controle dos tempos lentos, cujo emprego no jazz vocal igualmente é considerado pioneirismo seu. De Cole Porter, sobressaem-se uma “Let’s do it” graciosa, uma “Love for sale” mais seca (talvez porque, conforme lerão abaixo, conhecesse o tema abordado na letra: prostituição) e uma “Night and day” mais vagarosa. De George Gershwin, uma “The man I love” dengosa e uma “I loves you Porgy” (ária da ópera jazz “Porgy and Bess” em que a protagonista pede proteção ao amado contra o vilão) de drama contido. De Irving Berlin, “Cheek to cheek”, é claro.

Billie Holiday em ilustração do cartunista William Stout

Billie Holiday em ilustração do cartunista William Stout

Em qualquer relação do melhor de Billie, porém, não podem faltar músicas de autores menos festejados mas muito bem tratados por ela. São casos como os de Harold Arlen (“Stormy weather”) e Jimmy Davis (“Lover man”). Outro é Lewis Allan, pseudônimo de Abel Meeropol, poeta que escreveu a emblemática – em termos políticos, não musicais – “Strange fruit”, um protesto contra o linchamento de negros sob o intenso racismo no sul dos Estados Unidos (“Strange fruit hanging from the poplar trees…”), só abolido oficialmente na década de 1960. Hoje muito associada a “Strange fruit”, Billie tinha a canção como o ponto alto de seus shows do começo dos anos 1940, mesmo com várias rádios negando-se a tocá-la.

A grande cantora, no entanto, ainda compunha: “Lady sings the blues” (mesmo título de sua célebre autobiografia, publicada em 1956), “Don’t explain” e “God bless the child”, entre outras menos difundidas, são dela própria, com parceiros. “Fine and mellow”, só dela, começa com o lamento de uma mulher pelos maus-tratos de um homem (“My man don’t love me/treats me, oh, so mean/He’s the lowest man/that I’ve ever seen”), para depois revelar que, apesar disso, ela não resiste quando o sujeito se faz carinhoso (“But when he starts in to love me/he’s so fine and mellow…”). Todos bons casamentos de melodia e letra, de pouquíssimas regravações à altura das versões originais da autora.

A cantora norte-americana Billie Holiday Crédito: FSP - Ilustrada

A cantora norte-americana Billie Holiday
Crédito: FSP – Ilustrada

Outra admiradora sua, a ótima cantora e pianista Shirley Horn (1934-2005) declarou, para o encarte de uma coletânea de 1997, que Billie ajudou a mostrar que canções têm de contar uma história, “significar algo, traçar uma pintura para você (…). Ela não exagerava e brincava e coisas do tipo, feito alguns cantores; apenas parava e cantava. Cantar uma canção, pintar um quadro; deixar você saber tudo o que estava acontecendo, então você poderia ver como a vida dela era.” Pois a própria Lady Day, certa vez, salientou que, para cantar “o blues” (o jazz nasceu do blues, do ragtime e das brass bands), “você tem de senti-lo”, e que tudo que cantava era parte de sua vida. Sempre se deve desconfiar do clichê “a arte retrata a vida do artista”, mas, no caso de Billie, tal noção parece incontornável: ela transmitia por meio do canto muito da sua trajetória atribulada. Nascida quando a mãe tinha somente 13 anos, Eleonora Fagan Gough – seu nome verdadeiro – passou por infância pobre, sofreu abusos sexuais e chegou a prostituir-se na adolescência. Começou a cantar no início dos anos 1930, em nightclubs nova-iorquinos, foi descoberta pelo produtor John Hammond e consagrou-se depois em apresentações com o grupo de Benny Goodman e a orquestra de Artie Shaw, mas sua vida pessoal seguiu conturbada. Billie contabilizou episódios de depressão, decepções amorosas e vício em álcool e heroína, o qual, inclusive, levou-a à prisão, por porte de drogas. Morreu de cirrose. Sua arte sobrevive, para nosso prazer. E reiterar suas qualidades sempre valerá a pena.

“Just treat me right, baby
and I’ll stay home night and day…”

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